Recusa de Diego Costa à convocação da seleção reabre discussão sobre conflito entre patriotismo e profissionalismo no futebol
SÃO PAULO - Quando o brasileiro naturalizado espanhol Diego Costa afirmou que deseja atuar pela Espanha e disse “não” à convocação de Felipão para os próximos amistosos do Brasil, ele deu cores novas ao velho ditado “minha pátria é onde me sinto bem”. Indiretamente, atualizou uma discussão que acompanha a história da recente profissionalização do futebol sobre patriotismo, amor à camisa, orgulho nacional e sonhos pessoais.
Não há consenso entre os jogadores ouvidos pelo Estado. Uns falam em ouvir o coração, outros dizem que a decisão tem de ser profissional, uns concordam com o ditado e outros preservam as raízes a ferro e fogo. O poder financeiro tem de ser considerado e muitas naturalizações têm as questões monetárias como pano de fundo. “Sou contra qualquer tipo de naturalização. Joguei pelo Brasil e pela Itália, mas não faria de novo”, provoca José João Altafini, o Mazzola (leia mais abaixo).
Outros jogadores já haviam colocado o dedo nessa ferida. Mazinho, campeão do mundo em 1994, tem dois filhos hispano-brasileiros: Thiago, de 22 anos, e Rafael Alcântara, de 20. Ambos são bons de bola, prosperaram e chegaram às portas das seleções dos dois países. Embora o pai quisesse que jogassem com a amarelinha, curiosamente eles tomaram caminhos diferentes na mesma encruzilhada em que Diego Costa se enfiou.
Thiago, que construiu sua carreira no Barcelona e hoje está no Bayern de Munique, optou pela Espanha. Foi chamado por Vicente del Bosque pela primeira vez em 2011. Rafael, que ainda é do Barça, mas está emprestado ao Celta de Vigo, decidiu mudar o rumo da prosa e disse que queria jogar pelo Brasil. Seu desejo foi realizado e ele participou do último Sul-Americano Sub-20. Isso depois de defender as categorias de base da Espanha, do sub-16 ao sub-19.
Mazinho conta que a decisão do filho mais velho não ficou apenas na esfera individual. “Em 2007, quando o Thiago foi convocado pela Espanha pela primeira vez, informei isso à CBF. Ouvi que ele não seria aproveitado na seleção brasileira porque havia sido formado fora do País. As portas foram fechadas e aquilo me machucou muito”, conta o ex-jogador.
Vale um lembrete: pelo novo estatuto da Fifa, de 2009, um jogador só não pode mais mudar sua cidadania no futebol se já tiver disputado uma partida de competição oficial por seleção adulta. O primeiro a se beneficiar da mudança foi o volante Thiago Motta, que teve aval para jogar pela Itália apesar de ter defendido a seleção brasileira em dois jogos da equipe sub-23.
Hoje, a CBF não quer mais apenas atletas formados no País (vide o caso de Diego Costa). A mudança de postura beneficiou o filho mais novo de Mazinho e dezenas de garotos brasileiros espalhados pelo mundo. E o tetracampeão está conformado com o fato de realizar seu sonho só pela metade.
Depois que eu fui campeão do mundo com o Brasil em 1958, tive a oportunidade de jogar na Itália. Recomecei minha carreira e conquistei alguns títulos, entre eles o primeiro europeu do Milan, mas não me esqueci da seleção. Fiz uma consulta à CBD (denominação da CBF na época) sobre uma provável convocação para 1962, mas não tive resposta. Fiquei sem saber o que fazer. Se eu não jogasse pela Itália, não jogaria a Copa. Tomei uma decisão profissional e resolvi jogar com a seleção italiana. Aí, começou um dos episódios mais tristes da minha vida. As pessoas me chamavam de mercenário e ex-brasileiro. A imprensa também me criticava. Fiquei magoado. Logo depois, a Fifa instituiu uma lei proibindo que um jogador atuasse por duas seleções diferentes. Continuei a minha carreira na Itália. Até hoje penso que poderia ter sido tricampeão mundial, jogando em 1962 e 1970. Joguei em duas seleções, mas não faria de novo. Hoje, sou contra qualquer naturalização. O jogador tem de atuar pelo país em que nasceu e pronto.
Donato, defendeu a Espanha na Eurocopa de 1996
Vim para a Espanha com 25 anos e fui para a seleção com quase 31. Se eu não fosse naquele momento, não teria outra oportunidade. Era o último vagão. O curioso é que, quando eu vim para cá, eu estava no melhor momento da minha carreira no Vasco e tinha esperança de ir para a seleção brasileira. O problema é que aqui me senti totalmente esquecido pela seleção brasileira e pelos treinadores.
Quando eu me tornei cidadão espanhol, em 1990, chegaram a falar que eu tinha negado a minha nacionalidade. Isso não aconteceu em momento algum. Eu sempre mantive os meus dois passaportes e poderia defender o Brasil, tanto é que o Mauro Silva também tinha cidadania espanhola e jogava pela seleção brasileira. O meu caso, no entanto, venderam como se eu tivesse deixado de ser brasileiro.
No fim das contas, atuar pela Espanha foi uma das coisas mais bonitas da minha carreira. Nunca esperava ser recebido com tanto carinho e respeito pela torcida e por jogadores como Zubizarreta, Hierro e Luís Enrique. Sinceramente, não sei se seria recebido assim no Brasil.
Na minha estreia, contra a Dinamarca, em Sevilha, marquei um gol e mais de 80 mil pessoa gritaram o meu nome no estádio. O meu recebimento aqui foi tremendamente bonito. Só tenho a agradecer. Meu sonho era vestir a camisa da seleção brasileira, mas nunca tive a oportunidade.
Roger Guerreiro, disputou a Eurocopa de 2008 pela Polônia
Cheguei à Polônia em 2006 e logo vivi uma fase muito boa. O Legia Warszawa não era campeão havia seis anos e conseguimos quebrar esse jejum. No ano seguinte, fui eleito o melhor jogador em atividade na Polônia. Apesar de eu ter um destaque grande lá, o futebol polonês é totalmente escondido do Brasil, não tem nenhuma visibilidade aqui. Por tudo isso, eu estava consciente da minha realidade. A chance de defender a seleção brasileira era praticamente zero e, então, me foi oferecida a oportunidade de disputar a Eurocopa de 2008. O Leo Beenhakker, técnico da seleção, veio falar comigo e aceitei o convite. Depois de conversar comigo, ele foi falar com o presidente do país, o Lech Kaczynski, para saber se era possível dar um passaporte para mim. A Polônia tinha acabado de se classificar para a Eurocopa e ele estava com muito prestígio no país. Pelo procedimento normal, eu teria de estar morando há cinco anos no país, mas eu estava havia apenas dois. Então, foi feito um pedido especial. Aceleraram o processo para regularizar a minha situação porque a Eurocopa estava para começar e em três meses saiu o passaporte.Sou muito grato à Polônia porque foi o país que me abriu as portas na Europa e me acolheu muito bem. Até os torcedores de outros times gostavam de mim. Depois da Eurocopa, ainda joguei as Eliminatórias para a Copa de 2010.
Cacau, disputou a Copa de 2010 pela Alemanha
Decidi pedir a cidadania alemã porque estava totalmente integrado ao país, conheci outra cultura e meus filhos nasceram na Alemanha. Foi uma decisão mais pessoal do que profissional. Nem imaginava que seria convocado pela seleção alemã, mas fiquei muito feliz e até honrado quando fui chamado pela primeira vez em 2009, quatro meses depois de conseguir o passaporte. Comuniquei o fato à comissão técnica da seleção brasileira, então formada pelo Dunga e pelo Jorginho, e eles me disseram apenas “parabéns” e ficou claro que podia seguir meu caminho. A alegria de jogar pela Alemanha supera a frustração de não ter sido chamado pela seleção brasileira. Ao todo, fiz 23 jogos, marquei seis gols e dei uma pequena contribuição para a história alemã. Estou me recuperando de contusão e tenho poucas chances de jogar a Copa. Ainda me sinto brasileiro, vibro com as conquistas do Brasil, mas a experiência de vencer fora do País – já são 13 anos na Alemanha – foi muito importante. Como jogador de futebol e como homem.
Paulo Rink jogou a Copa das Confederações pela Alemanha
Em vez de ser mais um na seleção brasileira, eu era “o cara” da seleção alemã. Fiquei mais reconhecido internacionalmente por defender uma seleção de peso como a Alemanha, três vezes campeã do mundo, e isso acabou alavancando muito a minha carreira. Para mim, foi promocionalmente muito importante e esportivamente um desafio que só agregou. Aquele receio inicial foi superado e tenho muito orgulho de ter disputado competições como Eurocopa e Copa das Confederações pela Alemanha. Em 1998, até cheguei a consultar o Luxemburgo, que era o técnico da seleção brasileira, e ele me disse que eu teria uma chance, mas seria uma aposta, e não uma proposta de trabalho duradoura. Então, entre a possibilidade de disputar um jogo só e ter um trabalho a longo prazo, entrou o profissionalismo na minha decisão. Eu era um profissional do futebol. Sei que jogar pela seleção brasileira é histórico e um desejo de criança, mas depois que você se torna profissional, depende financeiramente do seu desempenho dentro do campo e defende as cores de um equipe por dinheiro, acaba avaliando essa questão mais friamente. Tanto é assim que fiquei todo arrepiado quando tocou o hino nacional brasileiro quando joguei contra o Brasil na Copa das Confederações (de 1999), mas vesti a camisa da seleção alemã com muito respeito e profissionalismo.
fonte: estadao.com.br

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