Especialistas acreditam que clubes brasileiros terão dificuldades para manter seus principais atletas e para buscar reforços no exterior
Na sexta-feira, o dólar alcançou o maior valor desde abril de 2003, com a cotação comercial sendo vendida a R$ 3,28. A desvalorização do real afeta diversas parcelas da sociedade brasileira, entre elas o futebol. E quais efeitos o alto preço da moeda americana têm no esporte mais popular do país? São basicamente dois: aumento no número de transferências para o exterior e dificuldades em repatriar atletas.
Essa conclusão é do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, que também foi presidente do Palmeiras do início de 2009 ao final de 2010.
“O Brasil fica ‘mais barato’ com essa alta do dólar e os jogadores consequentemente também ficam mais acessíveis para mercado do exterior. E por outro lado fica mais caro para os times brasileiros repatriarem os atletas, porque a maioria dos clubes já fazem as negociações baseados no dólar”, explicou o economista (na foto abaixo).
A opinião do economista é endossada pelo jornalista Erich Beting, responsável pelo blog Negócios do Esporte e idealizador do site Máquina do Esporte.
“A alteração de câmbio tende a aumentar as exportações, não só no futebol. O valor segue o mesmo para o clube europeu. Uma multa de 10 milhões de euros segue a mesma. O que talvez aconteça é que os clubes brasileiros aceitem vender por menos”, afirmou.
Quem tem conhecimento de causa sobre esta realidade é o empresário Marcelo Robalinho, sócio da empresa Think Ball e responsável pelas transações internacionais da empresa, que tem entre seus clientes jogadores como Dudu (Palmeiras), Jadson (Corinthians), Guerrero (Corinthians) e Fabrício (Internacional).
Robalinho disse que a alta do dólar “impacta demais, talvez seja o maior fator” de influência no mercado do futebol brasileiro. Ele utilizou como exemplo a transferência do lateral-direito Mariano, que deixou o Fluminense rumo ao Bordeaux, da França, por 3,5 milhões de euros.
“Nós vendemos o Mariano em 2011 para o Bordeaux com o euro a R$ 2,25. Hoje o dólar está a R$ 3,24. O jogador fica mais barato para quem está fora”, disse o agente, que afirmou que é característica do futebol brasileiro exportar atletas. “Nós somos vendedores. Moeda barata significa que o produto é mais barato, assim vende mais”.
Destinos pouco tradicionais
Historicamente, a Europa sempre foi o destino dos principais destaques do Brasil. No entanto, na última janela de transferência, o futebol chinês acertou com o camisa 9 da Seleção, Diego Tardelli, e com o Bola de Ouro de último Brasileirão, Ricardo Goulart (foto). E Éverton Ribeiro, companheiro de Goulart no Cruzeiro bicampeão nacional, fechou com equipe dos Emirados Árabes Unidos.
Segundo Robalinho, isso acontece porque a Europa ainda se recupera de uma grave crise financeira e o euro não acompanha a valorização do dólar, o que interfere principalmente nas contratações de atletas de primeiro escalão. A situação europeia contrasta com a da China, como explica Belluzzo.
“Para os chineses, por exemplo, fica mais fácil buscar os atletas no Brasil. A moeda deles está valorizada em comparação com a nossa. Eles estão passando por um ‘sprint’ de compras, e fica difícil para os outros mercados acompanharem. Eles atravessam um momento muito bom financeiramente e isso influencia no mercado”, analisou.
Robalinho destacou outro campeonato que tem atraído atletas: a Major League Soccer, liga dos Estados Unidos, que tem nomes como Kaká (foto), David Villa e, em alguns meses, Steven Gerrard. O agente comparou a situação dos americanos com o período que o Brasil viveu há alguns anos.
“O que acontece com o dólar hoje foi um pouco do que aconteceu conosco há alguns anos, com o aquecimento do mercado por causa do fortalecimento da moeda, da expectativa em relação à Copa do Mundo e da expectativa em valorizar jogador na Seleção”, afirmou.
Repatriar? Nem pensar
Os torcedores que se acostumaram nos últimos anos a ver suas equipes irem ao mercado internacional e buscarem nomes de peso como Alexandre Pato, Jadson, Seedorf, Valdivia, Forlán, Fred e Conca, por exemplo, terão que se contentar com times mais modestos e reforços menos renomados.
“Acabou. A possibilidade de repatriar é praticamente nula. É praticamente impossível que se repitam aqueles casos de jogadores que eram ídolos na Europa, como Pato, Jadson e Liedson, que o clube europeu não queria perder, mas acabaram tendo que ceder porque os brasileiros cobriram a proposta”, sentenciou Robalinho.
A única opção apontada pelo empresário para quem busca reforços na Europa são atletas quem têm sido pouco utilizados pelos clubes, que teriam interesse em emprestá-los visando uma valorização futura.
Mas isso não significa que o futebol brasileiro deixará de ser o mais forte economicamente da América do Sul.
“Não porque o produto interno é mais valorizado. Os patrocínios aqui são maiores. O desequilíbrio vai continuar a existir”, afirmou Erich Beting, cujo argumento foi de encontro ao que disse Luiz Gonzaga Belluzzo.
“Não vejo problemas de concorrência com o mercado sul-americano, porque as outras moedas também estão se desvalorizando junto com o Real. A Colômbia, por exemplo, está mais desvalorizada por causa do petróleo. Também não vejo perspectiva do Peso acompanhar esse crescimento”.
fonte: band.uol.com.br

wmi9