Equipe do GLOBOESPORTE.COM esperou por Douglas durante uma hora, na tarde mais quente dos últimos 13 anos em São Paulo, em uma sala do CT do Corinthians que mais parecia uma sauna. Atrasado, o meia entrou no ambiente com sorriso sarcástico.
- Pô, desculpa, aí! É que eu tava dormindo no ar condicionado, tava uma delícia...
90% dos jogadores inventariam uma palestra do técnico, um tratamento ou um atraso no almoço. Mas nada explica melhor sua personalidade do que sua sinceridade quase irritante.
- Ele é exatamente isso - disse Tite, sorrindo, ao saber do caso.
Douglas anda pelo CT sem camisa, faz piadas e debocha dos outros, da seleção brasileira e de si mesmo, quando diz que está ficando ainda mais chato com a idade. Não aceita brincadeiras de quem não conhece, mas agradece sempre ao falecido pai, João, por ter insistido para que fizesse o quarto e derradeiro teste no Criciúma.
Após três dispensas, aos 17 anos, Douglas não queria mais jogar bola. Baixa estatura, deficiência técnica... Várias eram as justificativas dos treinadores, mas a vontade do pai foi fundamental, aliada a outro fator muito importante. O jovem odiava estudar, tinha horror ao trabalho e não sabia fazer absolutamente nada.
- Eu apanhei muito por causa da escola. Jogava bola na sala de aula, era terrível. Odiava, estudei até a sétima série. Tentei trabalhar de servente, uma vez fui arrancar feijão numa roça e fiquei com a mão toda calejada. No dia seguinte o cara passou em casa para me buscar, nem levantei da cama. Até hoje, não sei fazer nada.
Irmão de duas mulheres e dois homens, Douglas cresceu numa casa minúscula em Criciúma, interior de Santa Catarina. Os laços familiares eram quase obrigatórios, já que por muitas vezes tinham de dormir abraçados por falta de espaço. Os primeiros toques na bola foram dados num campo ao lado da mina onde o pai trabalhava. Aos oito anos, o menino esperava por João na porta de casa, com a bola na mão. Aos 15, pai e filho foram à escolinha do clube da cidade, mas só com quase 18 ele conseguiu ser aprovado, após cinco minutos de bate-bola.
Foram dois anos em que se repetiu o trajeto de ônibus, de 40 minutos, de casa até o clube. A ajuda de custo só dava mesmo para custear as passagens. Até que Cuca, hoje técnico do Atlético-MG, então no Criciúma, assistiu a uma partida do time de juniores, se encantou pelo canhoto e o levou aos profissionais. Até hoje, o abraço de Douglas no treinador é diferente, de gratidão.
Entre 2004 e 2006, a diretoria do clube catarinense rejeitou uma série de propostas pelo jogador. Só o São Caetano conseguiu dobrar o presidente, após um rápido empréstimo para o Rizespor, da Turquia. Nem Douglas entende o porquê, mas até hoje festeja a mudança. Segundo ele, em nove meses no ABC paulista, ele apareceu mais do que em todos os anos de Criciúma. Apareceu tanto que foi para o Corinthians, onde venceria a Série B, em 2008, o Paulistão e a Copa do Brasil, em 2009, e teria o maior arrependimento de sua carreira: a saída para o Al Wasl, dos Emirados Árabes Unidos.
A vida fora de campo foi maravilhosa. Douglas acordava, ia pra a praia, levava a filha à escola, almoçava, ia ao shopping, assistia a filmes, e só à noite ia para o treino. Eis o problema: dentro de campo.
- Meu time era horrível! Quando eu cheguei, o volante falou para eu ficar perto dele porque ele não sabia dar passes longos. Desanimei. A maioria dos outros jogadores trabalhava como policial. Acordavam às cinco da manhã e iam jogar à noite, mortos. Um diretor disse para mim que queria o Douglas do Corinthians lá. Eu falei para, então, contratar o time todo. Fiquei cinco meses e disse que não jogaria mais.
Alívio! Surgiu o Grêmio. Felicidade! Em 2012, ressurgiu o Corinthians, sua paixão desde a infância, quando ia à loucura com as comemorações de Marcelinho Carioca, que corria em direção à câmera e a chamava para si. Algo que Douglas nunca conseguiu repetir dentro de campo.
- Não tenho coragem, não gosto de aparecer.
Discreto, chato, inteligente, ranzinza, experiente, “tranquilo-irritado”, autêntico... Todos os adjetivos foram citados por Douglas para se definir durante a entrevista. Mas para marcar sua vida, ele escolheu guerreiro. E, dentro de sua autenticidade, admitiu que essa não era uma característica tão visível dentro de campo. Até o retorno ao Timão. Até o encontro com Tite.
Sincero ao extremo, o jogador foi recebido pelo técnico com a mesma transparência. Em resumo: se ele não emagrecesse, treinasse e marcasse, dificilmente teria chance de atuar.
- Ele queria que eu fizesse uma coisa que nunca fiz na minha vida. Tive de me adaptar e estou gostando. Não é que eu não corria, mas não era como agora. Eu me senti na obrigação de entrar no ritmo deles e estou super feliz por ver um treinador me elogiar por algo que nunca havia feito.
Douglas admitiu, também, que chegou a cogitar não ser mais o mesmo jogador quando foi contestado este ano. Dúvida que afetou seu humor. O amigo Fábio Santos é o responsável por alertá-lo em seus dias mais chatos. O meia sabe reconhecer: pega um fone de ouvido, recorre ao sertanejo, uma de suas grandes paixões, e se isola. Até o Mundial, porém, parece estar difícil tirar o sorriso sarcástico de seu rosto.
- Por tudo que a gente tem vivido, sofrido, essa garra não vai faltar. Ganhar uma Libertadores, e depois um Mundial, te tornaria ainda mais ídolo do clube. Eu imagino a gente comemorando muito no avião, na volta, dando risada, e vendo que tudo que sofremos esse ano valeu a pena.
Fonte: Globo Esporte

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