Philipe Sampaio: "O Feirense não merece isto. Temos de acreditar que é possível"

philipesampaio 100419O Transfermarkt esteve à conversa com Philipe Sampaio.

Ao nosso portal, o futebolista brasileiro do Feirense falou da sua chegada a Portugal, da época que realizou na Rússia, em ano de Campeonato do Mundo, da 'aventura' que foi deixar o seu país para ingressar no futebol europeu e da temporada complicada que vive em 2018/19, entre outros assuntos. Aos 24 anos, o defesa acredita que ainda tem muito para dar, mas sabe que vai ter de trabalhar para continuar a ver a sua carreira evoluir - no nosso país ou no estrangeiro.

Leia a entrevista na íntegra:

Transfermarkt.pt: Veio para Portugal numa fase inicial da sua carreira. O que o fez deixar o Brasil para vir para o nosso país? Era um sonho jogar na Europa?

Philipe Sampaio: É sempre um sonho, para um jogador que vive no Brasil – ainda mais eu, que morava numa favela. Mas tive a oportunidade, primeiro, jogando pelo Santos, uma oportunidade que eu não esperava que chegasse tão cedo. Todos os jogadores imaginam jogar primeiro no Brasil e, depois, conseguirem uma transferência para a Europa. Mas logo apareceu a oportunidade do Boavista e Portugal foi um país que me acolheu de braços abertos. É aqui que eu gosto de estar. É o meu lugar preferido para viver o resto da vida.

Transfermarkt.pt: O facto de falarmos a mesma língua, em Portugal e no Brasil, foi determinante para facilitar a sua adaptação ao nosso futebol?

Philipe Sampaio: Sim, a língua ajuda muito. A comida também é muito boa. A única coisa que tem de diferente na adaptação são os posicionamentos; o futebol português é diferente do campeonato brasileiro. Por isso, foi fácil. Aos poucos fui aprendendo. Errando e acertando. Mas sempre procurando evoluir.

Transfermarkt.pt: Na verdade, existe uma grande tradição no futebol português no que diz respeito à aposta nos jogadores brasileiros. Foi algo que pesou na sua decisão de vir para Portugal?

Philipe Sampaio: Não, não tinha essa perspetiva. Eu era um jogador muito novo, tinha acabado de completar 19 anos. O meu objetivo era jogar no Brasil para, depois, transferir-me. Quando apareceu a oportunidade de vir para Portugal, não pensei duas vezes, decidi numa fração de segundo. Tomei a decisão e disse: ‘Quero ir, é lá que vou procurar o meu espaço e construir a minha vida’.

Transfermarkt.pt: No Brasil, passou pelas camadas jovens de dois clubes com história na formação, o São Paulo e o Santos. Como considera que isso beneficiou o seu desenvolvimento enquanto futebolista?

Philipe Sampaio: São dois clubes com muitas estruturas, clubes muito, muito grandes no Brasil. Imagina ter a oportunidade de estar num clube desses… é muito, muito difícil. E isso ajudou-me a melhorar em todos os aspetos, tanto fisicamente, como psicologicamente. Tive todo o apoio para evoluir. Na formação, eu fui campeão em todos os torneios que disputei. Ajudou-me muito. Hoje, sou um jogador que tem mais facilidade em adaptar-se a um novo futebol, a uma nova estratégia, pois, desde a formação, fui habituado sempre a ganhar, pois estive nas melhores equipas.

Transfermarkt.pt: Sente-se desiludido por nunca ter jogado no Brasileirão, o principal escalão do futebol do seu país? Para si, jogar no campeonato brasileiro é um objetivo de carreira?

Philipe Sampaio: Sim, é uma vontade que tenho. Mas muitos dos jogadores que jogam no principal escalão do Brasil têm o sonho de jogar na Europa, e eu tive essa oportunidade. Então, sinto que sou um privilegiado por estar aqui, a caminho de completar a minha quinta temporada na Europa. Claro que tenho vontade de voltar ao Brasil, mas acredito que isso só poderá acontecer daqui a algum tempo. Na última janela de transferências, tive algumas oportunidades, mas, como já me adaptei a Portugal, isso pesou na minha decisão de ficar.

Transfermarkt.pt: Na Europa, já teve a oportunidade de atuar nas primeiras divisões de Portugal e Rússia. Em qual das ligas gostou mais de jogar?

Philipe Sampaio: Na Rússia, eu estava numa equipa que tinha objetivos europeus. E estava num país que ia acolher o Mundial. Então, foi tudo novo para mim. Estádios magníficos, coisas do outro mundo. Em termos de competitividade, acredito que o campeonato português é mais difícil que o russo. No russo, o último classificado pode ganhar à melhor equipa e, em Portugal, existem três equipas que são muito superiores, o FC Porto, o Benfica e o Sporting. Por isso, o português é mais difícil. Mas o futebol russo tem crescido muito. Na Rússia, vale mais a força, aqui em Portugal é a tática, quem faz o primeiro golo tem mais chances de ganhar.

Transfermarkt.pt: E como se adaptou ao futebol russo?

Philipe Sampaio: As minhas maiores virtudes são o jogo aéreo, o contacto, a força, o físico, a velocidade. Por isso, na Rússia consegui enquadrar-me muito bem. Infelizmente, tive uma ou outra lesão. Mas estava num clube que me dava todas as condições para trabalhar.

Transfermarkt.pt: Então, porque regressou a Portugal?

Philipe Sampaio: Voltei para Portugal porque senti que, aqui, tinha a chance de dar o salto para um clube maior, seja cá ou noutra liga.

Transfermarkt.pt: Já teve algumas lesões na presente temporada, tal como tinha acontecido no ano passado. Acha que os problemas físicos afetaram a sua performance desportiva em 2018/19?

Philipe Sampaio: Afetaram, mas são coisas a que os jogadores estão sujeitos. Numa das lesões tive azar, foi um choque num jogo da Taça de Portugal, diante do Mirandela, já no prolongamento. A equipa não vivia um bom momento, precisava de mim, e eu fiz muitos jogos em poucos dias, e, depois, acabei por ter uma sobrecarga e uma lesão muscular. Isso prejudicou um pouco a minha performance. O que agravou um pouco foi eu ter vindo da Rússia com uma lesão e não ter feito a pré-temporada. Quando um jogador não faz a pré-temporada, acaba por sentir dificuldades durante a época. Quando cheguei, já se jogava a quarta jornada. O corpo não conseguiu responder a um futebol de alto nível. Mas, sempre que estive em campo, procurei cumprir da melhor forma. Fiz dois golos.

Transfermarkt.pt: A nível coletivo, o Feirense está a atravessar uma fase complicada na temporada. Que razões aponta para este mau momento?

Philipe Sampaio: Eu vou dizer que são diversos fatores. Até à oitava jornada, nós éramos a equipa sensação do campeonato e uma das melhores defesas da Europa. Ganhámos ao Rio Ave, ao Vitória de Guimarães, empatámos com o Boavista… são equipas que lutam pela Europa. Mas tivemos muitas lesões… e, quando as coisas não correm bem, há mais ansiedade. Os maus resultados foram criando ansiedade, a equipa não soube reagir, as coisas não começaram a dar certo e fez-se uma bola de neve. São fatalidades. Mas o Feirense é um clube que não merece isso. É um clube cumpridor, que tem um complexo que poucas equipas têm, e que nunca me deixou faltar nada.

Transfermarkt.pt: Considera que o clube ainda tem hipóteses de garantir a permanência na Liga NOS?

Philipe Sampaio: Matematicamente, é possível. No futebol, temos de acreditar. Eu lembro-me, acho que no meu segundo ano aqui em Portugal, que toda a gente já dava o Tondela como despromovido e, de repente, conseguiram a permanência, que foi um milagre. No ano seguinte, igual. Como jogamos futebol, tudo é possível, não temos como desistir. Claro que está difícil, vamos sentir grandes dificuldades. Mas, enquanto houver chances matematicamente, tem de se viver jogo a jogo. Não dá para prever o que vai acontecer daqui a cinco jornadas.

Transfermarkt.pt: Onde se vê a jogar na próxima época? Acredita que vai continuar no Feirense, ou equaciona uma transferência para outro clube?

Philipe Sampaio: O meu contrato só termina no final da época. Ainda faltam seis jogos, não tenho como falar do que vai, ou não, acontecer. Foi uma época menos positiva em termos coletivos. A nível individual, as lesões atrapalharam. Mas eu sou um jogador que já tem quase 80 jogos na primeira liga. Toda a gente sabe o que posso dar. Já sou um jogador com um certo valor, já conheço a liga. Infelizmente, as coisas não correram bem. O futuro eu vou deixar nas mãos de Deus. Vou ter calma, não me vou precipitar. Ainda é muito cedo para tomar uma decisão. Mas claro que gostaria de ficar aqui em Portugal. Vou ter o meu primeiro filho, e isso também pesou na decisão de voltar a Portugal, a minha esposa estava grávida. E este é um país fantástico.

Transfermarkt.pt: Quais as suas ambições de carreira? A que patamar sonha chegar?

Philipe Sampaio: Sendo realista, eu tenho a ambição e acredito que posso chegar a um clube que, não sendo dos maiores, que dispute as competições europeias. Ainda tenho 24 anos, sei que posso chegar lá. Mas, antes disso, tenho que ter um papel mais importante nas equipas menores. É muito difícil jogar na Premier League, ou no campeonato espanhol, ou francês, mas eu já estou numa liga ‘top’, em Portugal. Agora, o meu objetivo é dar o salto para uma equipa média, onde me poderia capacitar da filosofia dessa equipa para, depois, estar preparado para jogar nesse alto nível que ambiciono.

Transfermarkt.pt: Quais os melhores jogadores com quem já partilhou balneário?

Philipe Sampaio: Aqui em Portugal, há um jogador que me encantou. Foi o Rúben Ribeiro. Acho que é um jogador que merecia estar noutro patamar. Na Rússia, no Akhmat Grozny, joguei com o Oleg Ivanov. Ele estava na seleção russa e era um jogador que fazia coisas diferentes com a bola nos pés. Também joguei lá na Rússia com o Léo Jabá, que, hoje, está no PAOK. Outro jogador que sempre se diferenciou, voltando aos meus tempos do Boavista, foi o André Schembri. Quando o vi jogar, disse logo: ‘É um grande jogador’. Fazia coisas que os outros não faziam.

Transfermarkt.pt: E os mais difíceis que já defrontou?

Philipe Sampaio: No campeonato português, o mais difícil que eu marquei foi o Jonas. É um jogador muito inteligente. Já me aconteceu estar os 90 minutos de um jogo totalmente concentrado e ele, só com uma oportunidade, fazer golo. Posiciona-se muito bem na área. Outro foi o Jackson Martínez, um jogador muito difícil de defrontar, muito forte fisicamente. Dar meio centímetro a um desses dois jogadores é dar golo.

Transfermarkt.pt: Para terminar, gostaria de lhe perguntar se concorda com o valor de mercado (1.25 milhões de euros) que lhe atribuímos no nosso site.

Philipe Sampaio: O Transfermarkt é uma plataforma na qual todos os clubes e empresários do mundo têm um primeiro acesso aos jogadores. Há seis meses atrás, o meu valor era de 1.6 milhões de euros, quando eu estava a jogar na Rússia. Agora, como resultado da época menos positiva, o valor baixou muito. Baseiam-se em estatísticas, números… Mas, se esse valor está aí, então é um valor correto. Acredito que posso valer muito mais. Tenho que continuar a trabalhar. Saber as minhas limitações, onde sou forte, e continuar.