Philipe Sampaio em entrevista exclusiva ao jornal português O JOGO

Aos 22 anos, o central está na terceira época no Boavista. A mudança para uma nova realidade coincidiu com o regresso dos axadrezados à elite e o brasileiro atesta uma evolução sustentada

Na favela Raposo Tavares, Philipe Sampaio é um exemplo de como o trabalho árduo pode evitar um destino que parece traçado à nascença. O Boavista deu-lhe asas ao sonho e o defesa sente-se cada vez melhor.

Fez a formação no São Paulo e também no Santos. Isso não é muito normal...

-Joguei quatro anos no São Paulo e houve um torneio de Sub-17 em que fui o melhor central. Só que no Santos o Neymar trazia muita visibilidade. Estava há quatro anos no São Paulo e decidi arriscar, o Santos tinha um futebol muito atrevido, lá dão muitas oportunidades aos jovens. Logo no primeiro ano tive uma experiência na primeira equipa. O Muricy de Ramalho subiu-me, estive 30 dias na pré-época.

Naquela altura já se percebia que o Neymar não era deste planeta?

-Não era do nosso mundo. Nos treinos, nós já nem podíamos tocar-lhe e às vezes deixávamo-lo passar. Se lesionasse o Neymar rescindiam-me o contrato [risos]!

Como é Raposo Taveres, onde cresceu?

-A primeira imagem que as pessoas têm desse sítio é que tu vais fazer qualquer coisa má. E eu quero mostrar-lhes que é possível chegarem onde eu cheguei com muito trabalho. Só eu consegui dar sequência à minha vida. Alguns amigos morreram com tiros, outros não estão num bom caminho e ficam felizes por mim. Veem-me na TV e ficam fascinados. Quero mostrar que não é uma coisa do outro mundo e por isso é que tenho um projeto social para que, mesmo que não sejam jogadores, salvem a vida.

Em que consiste esse projeto?

-Uma vez por semana, as crianças têm treinos de futebol, mas têm de levar as notas da escola. Quem não estiver a participar não tem direito a equipamento. Os mercados da comunidade ajudam com lanches e sumos e o meu pai coordena o projeto.

Ingressou no Boavista no regresso à I Liga, como descreve a evolução do clube?

-Foi grande. Para mim também foi um choque, sair do Brasil e apanhar o Boavista naquela fase. Todos diziam que o clube já ia cair, já ia descer e nós vimos isso como uma oportunidade. As coisas estão a melhorar de dia para dia e, em breve, o Boavista vai voltar aonde nunca mereceu sair, entre os grandes, lutando pelos lugares europeus.

Em que aspeto se considera mais forte?

-O aspeto que tenho vindo a aprender aos poucos é o posicionamento - o futebol é diferente do que se joga no Brasil. No começo, cometi alguns erros, agora vejo-me muito mais maduro, mais completo, mais decidido.

Ficou ligado aos golos sofridos com o Arouca e o Belenenses, perdeu a confiança?

-Foram duas más decisões, mas isso só me faz crescer e ser melhor jogador. Analisei esses momentos, conversei com o treinador, que me tentou corrigir e dei uma resposta positiva contra o Chaves. Com o Arouca, o resultado foi positivo, mas com o Belenenses perdemos e sente-se mais, vamos para casa chateados, não conseguimos dormir.