Hoje no Mundial, ex-Palmeiras nega que time africano use feitiçaria: 'Desculpa esfarrapada'


Quando o Mamelodi Sundowns, da África do Sul, surpreendeu o continente ao bater o favorito Zamalek, do Egito, conquistando a Liga dos Campeões da África pela primeira vez em sua história

- garantindo também a classificação inédita ao Mundial de Clubes da Fifa -, o presidente da equipe egípcia, Mortada Mansour, acusou os sul-africanos de usarem "mágica e feitiçaria" em campo, fazendo o Zamalek desperdiçar "18 chances na cara do gol", nas palavras do cartola.

Pouco mais de um mês depois das acusações, o zagueiro brasileiro Ricardo Nascimento, titular absoluto do Mamelodi, ainda dá risada do fato. Enquanto se prepara para a estreia no Mundial, neste domingo, contra o Kashima Antlers, do Japão, ele tira sarro das declarações de Mansour.

"Um dia um amigo do Brasil me mandou essa matéria morrendo de dar risada. Pra comentar isso, só usando a mesma resposta que ele deu pra mim, aquela velha brincadeira: 'se fosse por causa de feitiçaria, o Campeonato Baiano terminava empatado todo ano'", brincou Ricardo, de 29 anos, em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br.

"Não tem nada a ver (as acusações de uso de feitiçaria). Eles perderam porque não fizeram uma boa primeira partida e nós fizemos um ótimo jogo, abrimos três gols de diferença e aí a final ficou praticamente decidida. Depois que perde, todo mundo arruma desculpa esfarrapada, é sempre assim", dispara o brasileiro.

Revelado pelo Rio Branco-SP, Ricardo Nascimento está desde setembro no Mamelodi, após passagem de quatro anos pelo futebol português. O time sul-africano  conhecido como "Os brasileiros" na África do Sul, já que usa uniforme parecido com a da seleção canarinho.

Ansioso pela disputa do Mundial de Clubes, a que se refere como "um sonho de infância", o defensor já sonha com um possível confronto contra o Real Madrid na decisão. Para isso, porém, será preciso primeiro vencer o Kashiwa, e depois o forte Atlético Nacional, da Colômbia, campeão da Libertadores.

"Sinceramente, espero que a gente ganhe o primero jogo, que é sempre o mais nervoso, e depois o que vier é lucro. Vamos talvez pegar o Atlético Nacional, e vai ser um jogo em que a gente sabe que tudo pode acontecer. Eles são favoritos, mas a gente tem como ambição tentar repetir o que o Mazembe fez em 2010 e chegar à final", brada.

"A grande vontade do grupo é enfrentar o Real Madrid, que a gente sabe que seria a final dos sonhos para todos os jogadores. Afinal, trata-se de uma das maiores equipes do mundo, se não for a maior", elogia - o líder do Campeonato Espanhol estreia contra o vencedor das quartas entre Jeonbuk Motors, da Coreia do Sul, e América, do México.

Feliz da vida no atual campeão continental, Ricardo confessa que nunca havia imagino jogar na África, mas não se arrepende de ter aceitado a proposta do Sundowns.

"Nunca tinha passado pela minha cabeça jogar na África, mas aí apareceu o projeto dos caras, de jogar a Champions africana e disputar o Mundial, que é um sonho de infância, o sonho de qualquer jogador brasileiro. Decidi arriscar e graças a Deus deu tudo certo. Agora, vamos com tudo no Mundial e é esperar para ver o que vai acontecer", sonha.

Passagem pelo Palmeiras e resenhas na Romênia

Ricardo Nascimento nasceu em Ilhéus, na Bahia, mas começou ainda garoto no futebol amador de Americana, no interior de São Paulo, onde se destacou pelo Unidos da Cordenonsi. Depois, passou pelo Friburguense, do Rio de Janeiro, antes de ter sua primeira chance em um grande clube: o Palmeiras, pelo qual foi contratado em 2008.

Ele não chegou a fazer nenhuma partida pelo time principal, atuando apenas pela equipe B palestrina, mas guarda boas memórias de seus tempos alviverdes.

"O Palmeiras foi um time em que fiquei pouco tempos, mas fui muito feliz. Tive o Jorginho como treinador, e ele foi um dos melhores que tive na minha carreira. Aprendi muito com ele", lembra o zagueiro, citando o então comandante do Palmeiras B, que viria a se tornar técnico da equipe principal no ano seguinte, após a saída de Vanderlei Luxemburgo e até a chegada de Muricy Ramalho durante o Campeonato Brasileiro.

"Tinha muita vontade de continuar e buscar uma chance no Palmeiras, mas aí apareceu uma proposta de Portugal, que era bem melhor financeiramente na época, e eu acabei optando por aceitar", conta o beque.

A proposta era para jogar pelo Penafiel, time que Nascimento defendeu entre 2009 e 2010, indo depois para o Astra Giurgiu, da Romênia. Foi no time romeno que passou seus primeiros apuros na adaptação à Europa.

"Em Portugal era fácil, mas na Romênia eu não sabia nada dá língua e nem falava nada de inglês, até hoje eu não sei (risos). Aí eu só comia frango, porque era a única palavra que eu sabia. Na hora de pedir, então, só vinha frango, porque era a única palavra que eu sabia falar (risos)", gargalha.

Outra história boa é do técnico que foi mandado embora por um motivo bem banal.

"Tive um treinador no Astra que infelizmente foi mandado embora após apenas cinco jogos. Os romenos justificaram dizendo que ele andava assobiando, e que isso dá azar. Aí falaram que o treinador foi mandado embora por causa disso! É a cultura deles, né? Tem que respeitar... Mas que é esquisito isso é", relata, ressabiado.

Depois do Astra, Ricardo voltou a Portugal e defendeu Portimonense (2010 a 2012), Moreirense (2013/2014) e Academica, clube pelo qual disputou as duas últimas temporadas. Veio então a proposta do Mamelodi Sundowns e o brasileiro topou.

A Champions que não tem nada de Champions

Quando chegou ao clube de Pretoria, Nascimento logo se impressionou com a boa estrutura oferecida pelos "Brasileiros", que são os maiores campeões do futebol local, com sete títulos (três a mais que os outros grandes, Kaizer Chiefs e o Orlando Pirates).

"Quando cheguei, fiquei impressionado com a estrutura do clube, com o país e a cidade. A África do Sul também me surpreende muito, pois não imaginava o país legal que é. Claro que tem muita pobreza, mas também tem seu lado bom. É muito organizado e as pessoas são cordiais, simpáticas e muito civilizadas", elogia o defensor.

"É um país que me surpreende mais a cada dia que passa. Minha esposa gosta muito daqui e já está totalmente adaptada. Claro que é um país que tem seus problemas, como todos têm, mas está crescendo e vai evoluir muito", acrescenta Nascimento.

A Champions League africana, porém, não deixou a melhor das impressões para Ricardo.

"Por se chamar Champions, todo mundo de fora imagina que é uma coisa de outro mundo, igual a Champions da Europa, mas é totalmente diferente", lamenta.

"Você vai jogar no Congo e vê uma pobreza absurda, é muito triste. O campo, então, não dá nem pra chamar de campo, de tão ruim que é. Eu ainda disputei pela primeira vez, imagina meus colegas que já jogaram outras edições, eles contam cada história. Meu primeiro jogo foi na Nigéria, e tive um choque de realidade vendo a pobreza africana. Essa parte me deixou muito assustado, não achei que seria assim antes de vir", relembra.

Para ser campeão, o Mamelodi se classificou em primeiro no grupo que tinha Zamalek (Egito), Enyimba (Nigéria) e Sétif (Argélia).

Na semi, eliminou o Zesco United (Zâmbia), antes de derrotar o favorito Zamalek na decisão, fazendo 3 a 0 na ida e perdendo por 1 a 0 na volta, com o estádio lotado por mais de 70 mil pessoas.

Antes disso, curiosamente o Sundowns havia sido eliminado da competição na segunda fase preliminar, pelo Vita Club, da República Democrática do Congo. No entanto, o clube congolês foi punido pela escalação de um atleta irregualr, e os sul-africanos retornaram ao torneio para serem os grandes campeões (entenda o caso).

Agora, o sonho é derrotar o Kashima e depois o Atlético Nacional no Mundial, fazendo a sonhada final com o Real Madrid, no maior jogo de clubes para o futebol africano desde Raja Casablanca x Bayern, pela final de 2013, vencida pelos alemães.

O duelo contra o Antlers é no domingo, às 8h30 (de Brasília), em Suita.

E sempre deixando claro: sem usar mágica ou feitiçaria...