'HIPSTER DA FIEL', ZAGUEIRO DO SUB-20 ABRE O JOGO, ASSUME PAPEL DE LÍDER E PREVÊ COBRANÇAS

A trajetória do zagueiro Vinícius Del’Amore, um dos pilares do Corinthians que disputa a Copa São Paulo de Futebol Júnior 2017 a partir desta quarta-feira, foge do script. Nascido em São Bernardo do Campo-SP, o xerife da equipe Sub-20 iniciou a carreira no Timão aos onze anos, mas deixou o Parque São Jorge ainda garoto. No fim de 2015, após mais de quatro anos vestindo a camisa do rival Palmeiras, voltou para casa.

Em entrevista ao Meu Timão na Fazendinha, local dos últimos treinamentos do elenco alvinegro antes da estreia na Copinha, o jovem, descendente de italianos, recorda os primeiros passos no esporte que hoje encara como profissão. “Acho que você pode, sim, formar um capitão, mas a liderança maior vem de dentro da pessoa”, afirma, determinado, o dono da braçadeira no ano passado.

Não o bastante, o zagueiro corinthiano expõe a relação de cumplicidade com o pai – que abriu mão do emprego para apostar no sucesso do filho –, diz se espelhar no amigo e concorrente de posição Léo Santos, cita seus ídolos e revela o porquê da barba peculiar, visual esse que lhe rendeu até o apelido de “hipster da Fiel”, como ele mesmo brinca.

Meu Timão: Primeiro, queria que você falasse um pouquinho do seu sobrenome. De onde ele vem?

Vinícius Del’Amore: O sobrenome é italiano, da família do meu pai. Meu avô, quando veio da Itália com a família dele, ficou em Minas Gerais, tanto é que parte da minha família é de Minas, de Mariana. A parte toda do meu pai é italiana. É um nome forte, né? Querendo ou não, é um nome que pega, as pessoas gostam. Eu gosto também por conta do futebol.

Conta um pouco seu início no futebol. A gente sabe que você foi do Corinthians, depois saiu...

Por mais que eu não tenha tanta idade, já tenho certa carreira no futebol. Eu comecei no Corinthians com 11 anos, joguei com 12 e, quando foram fazer uma viagem para Itaporanga-SP, recebi uma proposta pra jogar o Sub-13 pelo União Barbarense. Aqui eu estava no banco, não era muito utilizado, até por ser novo, e pensei: 'Ah, vou pro União Barbarense, vamos jogar o Campeonato Paulista'. Lá fomos campeões paulistas e ali começou, saí do União Barbarense, fui para o Desportivo Brasil. Com 14 anos, fomos campeões paulistas, da Copa Nike e de Laranjal, saí do Desportivo Brasil e fui para o Palmeiras, onde fiquei por mais tempo, quase cinco anos. Agora (2015) teve o retorno ao Corinthians.

Já tocando nesse assunto, como surgiu a possibilidade de retornar ao Corinthians?

Além dos amigos, eu tenho bastante amizade aqui, o Claudinei (Muza, coordenador operacional da base do Corinthians), que era diretor do Palmeiras, nos três anos que fiquei lá foi a gestão dele, então assim que ele assumiu aqui já tive algumas propostas. Foi com ele também que assinei meu primeiro contrato, com o Palmeiras. Então ele já me conhecia, foi meio caminho andado, uma indicação dele. E também o Osmar Loss, ele trabalhou no Desportivo Brasil, então tinha certo caminho trilhado para voltar.

Em 2015, você voltou ao clube e formou dupla de zaga na Copinha com o Léo Santos, que hoje está nos profissionais. Você já o conhecia?

Já, já tínhamos amizade. Até quando eu estava no Palmeiras já saíamos antes, nos encontrávamos. Gente boa demais, então não teve dificuldade nenhuma, o entrosamento já vinha de fora do campo.

Muitos apostavam no título da Copinha de 2016, muito em razão da boa atuação de vocês dois. Sabemos a importância que a Copa São Paulo tem para a torcida. Faltou um pouquinho de experiência?

O que deixou a desejar foi realmente os pênaltis. Não acho que faltou malícia porque teve até demais (risos). Acho que faltou um pouco de responsabilidade, mas é meu ponto de vista, não condenando ninguém. Como não bati, não posso julgar ninguém. Mas o campeonato em si foi muito bom para nós, um campeonato que serviu de experiência, fomos crescendo conforme o campeonato. Em 2016 havíamos sido eliminados na Copa Ipiranga e chegamos um pouco desacreditados, fomos crescendo ao longo da competição e mostramos experiência. Só deixamos a desejar nos pênaltis.

A gente percebe que você, até pelo modo de se expressar, de não apontar culpados, exerce um papel de liderança, além de ter sido capitão em 2016. Você sempre procurou transmitir essa liderança para seus companheiros?

Não sei se é do italiano isso ou de criação. Meu pai (Luis Carlos Del’Amore) também é assim, ele jogou bola e costumava ser capitão, então essa liderança já parte de dentro de casa. Acho que você pode, sim, formar um capitão, mas a liderança maior vem de dentro da pessoa. Desde os tempos do Palmeiras, União Barbarense, eu também era capitão. Então isso vai muito do caráter da pessoa, já nasce com ela.

Seu pai jogou futebol profissionalmente?

Ele se profissionalizou no São Bernardo (Esporte Clube São Bernardo, o “Bernô”), jogou poucas partidas. Só que em 1989 ele rompeu o ligamento do joelho, não teve como operar e não conseguiu voltar. Ele só continuou na várzea.

Qual a importância do seu pai na sua carreira?

Sem palavras (sorriso de canto). Nessa transição que eu tive entre Corinthians e União Barbarense, ele abdicou que algo que era o sustento da família para apostar no incerto, trocar o certo pelo duvidoso, que era a minha carreira. Quando fui pro União Barbarense ele parou de trabalhar, querendo ou não já tinha uma vida estável na profissão dele, e abdicou daquilo para me levar todos os dias para Santa Bárbara d'Oeste (cerca de 140 km da capital). Posso dedicar 100% da minha carreira a ele e à minha família.

Mudando de assunto, você não recebeu qualquer cartão em toda a Copinha passada. Esse jogo limpo é uma característica sua ou foi apenas coincidência?

Pelo meu estilo de jogo, de técnica, eu ligo muito, sim, para isso. Tem exemplos, o Léo Santos ficou fora da final da Copinha por conta de um cartão amarelo. Eu ligo muito para isso por saber as consequências, acho que é uma característica minha.

Muitos torcedores estranharam a promoção do Léo Santos no início do ano, isso porque você teve boas atuações na competição, talvez até superiores às dele, e por ser o capitão. Você achou que ganharia uma oportunidade naquele momento?

A gente sempre trabalha para isso, buscando uma promoção lá de cima. Mas não posso falar que invejei, não, porque fiquei muito feliz pela promoção dele. É um amigo meu, um moleque que jogou do meu lado, fomos bem. Se houve a promoção dele, sei que algo de bom nós fizemos para ter isso. Trabalhamos nesse foco, nesse objetivo, que é subir, mas sei que a hora vai chegar. Está tudo no tempo de Deus, minha vida é focada nisso e sei que minha hora vai chegar.

Ele (Léo Santos) serve de espelho para você?

Com certeza. Tanto eu para ele como ele para mim. A gente fez uma Copa São Paulo junto, jogamos outras vezes, conversávamos bastante. Não só ele, quem joga do meu lado, a gente sempre tenta crescer junto. Com quem está lá em cima no profissional também, é um aprendizado diário.

Mesmo com 19 anos e uma Copinha a disputar, você chegou a fazer treinos no profissional no ano passado. Como foi essa experiência?

De alguma forma, alguns jogadores deixam um pouco subir à cabeça isso (chegar aos profissionais), por mais que seja um jogo ou alguns treinos. Mas eu tento encarar como aprendizado, sempre trago algo. Por exemplo, algo que na base não tem muito hábito, após o treino fazer algum complemento, de cabeça... Pô, você sobe lá, ano passado via Edu Dracena, já ganhou tudo, fazendo complemento, cabeceando 200 bolas no treino. Aí você sobe lá e vê o Gil, depois do treino ele ficava que nem um cavalo, tirava bola de esquerda, de direita, cabeceava! E você vê gente com 19 anos acabando o treino e querendo ir embora. Aquilo serve de aprendizado. ‘Vim para cá e vou comer a bola. Cara de 30 anos fazendo isso, eu com 19 não vou fazer por quê?’. Esse tempo que fui, fui para jogo, para treinos, foi totalmente de aprendizado. Se não subi ainda, é porque falta algo.

Você entende que esse período de treinamentos no CT Joaquim Grava foi muito mais benéfico à parte emocional do que propriamente de tática, plano de jogo, etc.?

Como falei, você não pode deixar subir, tem de ser racional. Sei que eu com um treino e 19 anos não vou ser titular num jogo do Brasileiro. Eu aproveitava ao máximo os treinos, o máximo que tinha de aprendizado, de experiência, de poder chegar num cara e perguntar: ‘Pô, como é que faz isso, como é chegar no jogo...’. Para mim, serviu muito mais como aprendizado e experiência do que deixar isso subir meu ego.

Qual sua principal dificuldade? O que você mais se cobrou para melhorar?

Acho que Corinthians envolve mais raça, mais coração, do que a própria técnica. Para ser capitão, tem de ter muita raça, muita vontade, gritar, xingar, deixar a habilidade um pouco de lado e saber que veste a camisa do Corinthians. Para mim foi um pouco difícil no começo, mas nada que puxões de orelha e xingamentos do técnico não resolvessem. Então essa foi minha maior dificuldade, porque no Palmeiras o estilo de jogo é diferente, a comunidade é diferente. No Corinthians é jogo duro, torcida apoiando, jogo da base dá 20 mil pessoas. Essa cobrança de ‘ser Corinthians’, ‘Corinthians é coração’, fiquei meio assim. Mas agora já estou habituado.

E como é jogar na Arena Corinthians lotada, com uma torcida que a gente sabe que empurra de verdade? Qual a sensação para um garoto de 19 anos jogar ao lado de uma torcida dessa e toda a pressão envolvida?

Acho que o maior exemplo foi até na Copa São Paulo, o tanto de gente que tinha ali, nós jogando contra o Cruzeiro, perdendo por 1 a 0, virou o primeiro tempo e ganhamos por 2 a 1. Não dá para falar que foi só mérito nosso porque a torcida, com certeza, foi o 12º jogador ali. Era nítido tanto na cara dos jogadores adversários quanto na nossa a gana de ganhar só por conta da torcida. Influencia muito, não pode falar que não, porque influencia muito. Sem dúvida, a torcida é um jogador, sim, é uma coisa que motiva a gente.

Quando você foi apresentado, seus direitos econômicos estavam ligados ao Monte Azul, com contrato de empréstimo até o fim de 2017. Como está essa situação? O Corinthians já o procurou para renovar?

A gente já conversou por cima sobre isso. Essa situação foi um pouco mais jurídica do que contratual. Quando vim para o Corinthians, como saí do Palmeiras no começo de setembro para jogar a Copinha e as inscrições acabavam no final do mês, se eu viesse pelo Corinthians mesmo não ia dar para ser inscrito. O Monte Azul é do grupo de empresários que eu sou, são os donos. Foi mais por conta disso, o empréstimo sairia mais rápido na Federação.

Falando da Copa São Paulo, como foi a preparação de vocês?

Nosso time variou muito esse ano. Entramos na Copa São Paulo com um time muito novo, porém de muita técnica. Não podemos dizer que somos favoritos por conta disso, mas esse período de treinos que tivemos, sem dúvida, vamos com força máxima, até por causa da tradição que o Corinthians tem. Querendo ou não, quando você pega um adversário que olha a nossa torcida, não é qualquer um... A tradição e a camisa pesam muito mais do que o time. Acho que vamos com força máxima e temos tudo para no dia 25 estar lá no Pacaembu diante de 39 mil torcedores do Corinthians.

Essa pressão, o peso da camisa, pode atrapalhá-los em qual momento? Como trabalhar para que isso não influencie negativamente?

Hoje em dia o futebol está tão moderno, tão dinâmico, que não é simplesmente chutar uma bola e acabou. Tem o extracampo também, passamos por psicólogos, até mesmo o assessor de imprensa sabe o que você vai falar numa entrevista, sabe com o que você vai lidar no campo. A gente passa por diversas coisas que não são simplesmente jogar bola. A cobrança vai ser essa, entramos no estádio sabendo que vai ter tantas pessoas, que será difícil você ouvir seu treinador e você tem de fechar seus onze e dizer: ‘Olha, você vou correr por você e você por mim’. A torcida vai estar apoiando, só que também estará no direito de cobrar. Temos uma psicóloga, uma nutricionista, tudo por trás que torna isso ser muito mais fácil do que parece, mais leve, mais divertido você entrar no campo. O Corinthians nessa forma é tão moderno, tão grande, porque sabe lidar com essas coisas.

A gente vê que você tem uma postura diferente, de zagueiro que a torcida costuma apoiar e ter como representante dentro de campo. Você se espelha em alguém dentro de campo, seja do Corinthians ou não?

No futebol de hoje tem vários exemplos. Pô, Sergio Ramos (do Real Madrid), um zagueiro que é eficiente não só lá atrás, mas quando precisa faz os gols dele. Acho que, em especial, por eu estar no Sub-11 e ele disputando a Copa São Paulo, é o Marquinhos. Desde quando estava no Sub-11, lembro de disputar um torneio em Itaporanga e o Corinthians jogar a Copinha, era ele e o Antônio Carlos, que fez os dois gols na final (contra o Fluminense). Mas eu já via que ele (Marquinhos) era diferente. Pela idade que tem agora, ter tanta responsabilidade, Seleção Brasileira, Paris Saint-Germain, também por ter saído novo, ele é um espelho para mim. Não é nem pela idade, não conta, tem outros que são exemplo. Puyol (ídolo do Barcelona e da seleção espanhola) pela liderança que ele tinha... Mas pela situação que passa hoje, Marquinhos.

Essa barba aí é uma promessa que você fez (risos)? Se vencer, vai tirar?

A gente pode ver aí (risos). Mas sou um cara que, não falo nem religioso, mas essa barba na bíblia significa honra. Eu sei que Deus me honra muito em tudo que eu faço, seja dentro de campo ou fora. E a bíblia fala que, quando as pessoas tinham alguma punição, tiravam a honra da pessoa, tiravam a barba. Essa barba significa mais honra do que estilo. Como muitos falam por aí: ‘Ah, hipster da Fiel’ (risos). Mas é algo que eu posso dizer que é meu, eu gosto, gosto desse estilo. Mas se ganhar, a gente tira até o cabelo, raspa tudo (risos).

Legal! Tem algo a acrescentar à torcida? O espaço é seu.

Como falei, o torneio mais próximo é a Copa São Paulo e é esperar o máximo. A torcida vai poder cobrar, apoiar, a gente espera muito. Por mais que nossa chave seja em Taubaté, a torcida nunca deixou a desejar. A gente espera muito o apoio deles e podem esperar muito de nós, sim, porque é Corinthians, devemos satisfação a eles e esse décimo título da Copa São Paulo vai vir, sim, nessa geração. Vamos dar o máximo dentro de campo.

Fonte: meutimao.com.br