ENTREVISTA: MEIA BRASILEIRO SUPERA GUERRA CIVIL E VIVE BOM MOMENTO NA GRÉCIA

O brasileiro Farley vem ganhando destaque na atual temporada atuando na primeira divisão do futebol grego, onde defende o Panaitolikos desde 2016.

Em 13 jogos disputados,  o mineiro de Santo Antônio do Jacinto anotou quatro gols e três assistências, inclusive sendo eleito para a seleção da rodada recentemente. O meia de 23 anos percorreu um longo caminho no futebol até desembarcar na Grécia.

Com 15 anos de idade, Farley deixou a base do Cruzeiro para atuar no Sporting, de Portugal, onde concluiu sua formação como atleta e estudante. Seu primeiro desafio profissional foi na Ucrânia, onde jogou por um ano e meio no Sevastopol. Porém, a guerra civil dos ucranianos com a Rússia afetou o futebol local e obrigou o brasileiro a deixar o país rumo ao Chipre.

No futebol cipriota, o meio-campista por passou por Apollon Limassol e AEK Larnaca ao longo de duas temporadas e realizou um de seus sonhos profissionais ao disputar a Liga Europa, marcando um gol de bicicleta na fase de grupos. O bom desempenho no país chamou a atenção dos gregos do Panaitolikos, atual décimo colocado do campeonato nacional.

Em um bate-papo exclusivo com o Esquema de Jogo, Farley falou sobre suas experiências na Europa e os novos desafios para sua carreira. Confira:

Esquema de Jogo: O que você sentiu de diferença entre o Cruzeiro e o Sporting na sua formação como atleta?

Farley: Quando deixei o Cruzeiro para ir ao Sporting eu pesquisei bastante sobre o clube e percebi que o Sporting tinha um projeto para formação de jogadores muito bem feito, o que levou o clube a formar grandes nomes do futebol mundial como, por exemplo, Luís Figo, Cristiano Ronaldo, Quaresma, Nani, João Moutinho, Rui Patrício, entre outros. No Sporting, eles tinham condições melhores às que o Cruzeiro podia me oferecer naquela altura da vida tanto como atleta, na escola e pessoal também. Foi benéfico no sentido de ter aprendido taticamente o que o Brasil ainda não sabia ensinar para os jogadores. A minha intensidade e facilidade de atuar em várias posições e dinâmica de jogo aumentou muito. No Brasil eu tinha mais espaço para jogar, mas na Europa eu tive mais porque percebi que só o meu talento e qualidade técnica não eram suficientes para chegar ao mais alto nível. Sinto que vir para a Europa muito cedo me fez ser um atleta que pode jogar em qualquer país e estilo de jogo hoje.

EJ: Conta um pouco como foi a situação que você viveu na Ucrânia por conta da crise com a Rússia. Você chegou a passar por algum tipo de perigo?

F: Na Ucrânia foi muito legal no início, o Sevastopol era um clube organizado, tinha boas condições e me receberam com muito carinho. Depois de um e meio começaram os problemas com a Rússia. Isso atrapalhou muito o futebol e o campeonato na Ucrânia, então tive que sair do clube. No começo dos conflitos eu não presenciei nada perigoso, mas via muitos militares ucranianos e russos armados no início e no final da cidade, porque aquela região era uma das partes que a Rússia queria. Vi navios de guerra, tanques, eles estavam se preparando para um conflito muito forte, mas graças a Deus não aconteceu nada comigo e conseguir ir embora do país.

EJ: Você acredita que sua carreira teria tomado outro rumo se não tivesse acontecido esse problema na Ucrânia?

F: Eu acredito que não, acho que onde joguei até hoje e o que passei serviu de aprendizado em alguma coisa. Se não cheguei no mais alto nível ainda é porque não chegou a hora. Tudo acontece no tempo de Deus e a verdade é que tenho evoluído bastante e o objetivo é esse, ficar pronto para quando aparecer uma oportunidade maior eu estar preparado para agarrar com toda a força.

EJ: Portugal, Ucrânia, Chipre e agora Grécia. O quão foi importante para o seu amadurecimento como atleta ter passado por esses quatro países?

F: Para a minha vida profissional e pessoal foi muito importante atuar em todos esses lugares. No país que eu pensava que não seria legal jogar, que é o Chipre, foi onde joguei uma Europa League. Disputar esse campeonato contra jogadores que eu só tinha visto e jogado pelo Playstation foi muito legal, inclusive marquei um belo gol em um dos jogos do grupo e nesse dia eu nem dormi de tanta alegria. Estou feliz por tudo que passei e estou trabalhando muito para jogar a Liga dos Campeões. Esse é o meu objetivo e se Deus quiser vou conseguir.

EJ: Como tem sido a experiência de jogar na elite do futebol grego?

F: Normalmente, quem se destaca no futebol cipriota vai para a Grécia, que é um futebol mais visto na Europa e mais competitivo em relação ao Chipre. Poder atuar melhor aqui do que no Chipre está mostrando que estou evoluindo. Aqui o nível é muito igual, os jogos são muito difíceis de vencer e são decididos nos pequenos detalhes. Eu estou adorando e estou ansioso para jogar em outros países como Inglaterra, Espanha e Alemanha. Acho que vou evoluir muito quando tiver uma oportunidade em alguns desses lugares.

EJ: Como é a estrutura do Panaitolikos? Acredita que o time tenha condições de brigar pelo título local em pouco tempo?

F: O Panaitolikos tem excelentes condições, tem evoluído muito, possui um bom estádio, onde a torcida lota quase todos os jogos se o time estiver indo bem. Acho que ser campeão ainda está cedo, precisa evoluir mais, talvez tentar uma Europa League antes, mas acredito que o clube está indo no caminho certo de crescimento.

EJ: Fale sobre sua atual temporada. Como tem sido seu posicionamento em campo e desempenho?

F: A minha temporada começou com muitas dificuldades. Nos primeiros meses não tive muitas oportunidades de mostrar minha qualidade, mas a partir de outubro do ano passado o quadro mudou, mostrei a minha qualidade nas oportunidades que tive e fui ganhando o meu lugar. Eu tenho atuado como extremo-esquerdo e meia ofensivo, atrás do atacante. Pela quantidade de jogos que fiz até agora tenho tido um bom rendimento com três gols e quatro assistências. Estou muito confiante e quero tentar ajudar minha equipe com mais gols e assistências para vencer mais jogos.

EJ: Você tem planos de voltar a jogar no Brasil após ter saído daqui tão cedo?

F: Tenho muita vontade de jogar no Cruzeiro, pois é o clube do meu coração, o clube do meu pai e do meu irmão. Ter minha família no Mineirão me vendo jogar pelo Cruzeiro seria a realização de um sonho, mais que Liga dos Campeões ou qualquer outra coisa, significaria muito para mim. A minha região em Minas Gerais, Santo Antônio do Jacinto, ficaria orgulhosa de me ver jogando no Brasil e de preferência no Cruzeiro.