Do mais veloz ao reserva que já percorreu 526km: o raio-x da correria do Corinthians

GloboEsporte.com apresenta os recordistas do elenco alvinegro em diversos quesitos físicos nesta temporada. Preparador explica como a tecnologia ajuda o Timão a buscar títulos e evitar "migués"

Não é raro o técnico Fábio Carille aparecer no gramado do CT Joaquim Grava alguns minutos depois dos jogadores com um copo de café em uma mão e um papel com anotações na outra. Porém, o estilo simples e aparentemente ortodoxo do treinador em nada se assemelha aos modernos métodos de trabalho que ele e sua comissão técnica adotam no clube. Para que o comandante alvinegro tenha um apito como única ferramenta de trabalho no dia a dia, há profissionais com tablets, GPS, câmeras e até uma grua para filmar os treinamentos.

 

Utilizando-se de diferentes tecnologias, o Timão faz medições que ajudam a evitar lesões, melhorar desempenho e até acabar com o "migué", gíria popular no futebol para quando um atleta não se esforça como pode. O GloboEsporte.com teve acesso a alguns desses números e apresenta abaixo os destaques em diferentes categorias, como distância percorrida, velocidade média, arranques, entre outras. Os dados são de antes da partida contra o Atlético-GO, no último domingo.

Dentre as estatísticas, uma das que mais chamam a atenção é a do jogador que mais quilômetros percorreu na temporada. Não se trata de Romero, incansável para marcar e atacar, nem de Fagner ou Guilherme Arana, laterais que defendem e apoiam com vigor. Com 526km entre jogos e treinos, o volante reserva Warian, conhecido como Ameixa, é o recordista.

Mas como um atleta que não atuou em nenhuma partida oficial e foi relacionado para apenas uma partida pode ter percorrido uma distância maior do que a entre Rio e São Paulo em menos de seis meses? Walmir Cruz, preparador físico do Timão, explica:
Normalmente o atleta que não joga treina mais que os outros. O titular joga, se recupera, às vezes treina só um dia em campo, e depois vai para o jogo de novo. O volume deles é alto, mas não tanto quanto o dos que vêm só treinando.

Por conta dessa peculiaridade, há um grupo de jogadores que tira o sono de Walmir Cruz e do fisiologista Antonio Carlos Fedato. Chamado de G2, ele é composto pelos atletas que são relacionados, mas não entram em campo. Assim, eles não têm a intensidade dos titulares nem o volume de trabalho dos jogadores que ficam fora do banco de reservas.

– Às vezes, esse atleta entra no jogo e falam: "Ele está treinado, mas sentiu o ritmo". Sente mesmo, é engraçado. Porque jogo é diferente, mais corrido – explica o preparador físico.

Quem não sente é o volante Gabriel. Contratado neste ano, o camisa 5 atuou em 30 dos 32 duelos do Corinthians na temporada e é, dentre os titulares, quem mais se deslocou: 513 km. Ao lado de Maycon, ele também é quem mais dá arranques por partida: média de 90 por confronto.

O ritmo de jogo hoje é entre 120 ou 130 metros percorridos por minuto. Alguém pode falar: "Ah, mas isso é fácil fazer." Entretanto, com deslocamento, não. Você corre, para, gira, muda de direção, salta, chuta... Em um treino chegamos quase nessa meta, batemos 110 metros por minuto.

Outro que surpreende nas medições é Jô. Quem vê o centroavante de 30 anos e 1,89m não imagina que ele supere os garotos Pedrinho e Léo Jabá, por exemplo, sendo um dos atletas que atingem a maior velocidade máxima do elenco. Com aproximadamente 32km/h, ele faz parte do grupo de velocistas do Corinthians, ao lado de Léo Príncipe, Warian, Pedro Henrique e Paulo Roberto.

A maior parte dos dados é obtida pelo Corinthians por meio de um GPS com acelerômetro e frequencímetro que é acoplado no corpo dos jogadores nos treinos e jogos. Eles fornecem informações em tempo real. Câmeras e softwares específicos complementam a análise.

Confira algumas das curiosidades medidas pela comissão técnica alvinegra:
-Os titulares percorrem em média 105 km em 1600 minutos de atividades por mês.
-Alguns atletas, como Gabriel, Maycon e Rodriguinho chegam a percorrer 11km por partida.
-Em média, cada jogador gasta 1250 calorias por confronto.
-Romero, Jô, Fagner e Jadson estão entre os que mais dão sprints (corridas em alta velocidade) por rodada. Aproximadamente 19 por duelo.
-Cada atleta realiza 1400 acelerações e desacelerações por jogo.

Leia abaixo a entrevista com Walmir Cruz, preparador físico do Corinthians:
Como a comissão técnica utiliza estes dados na preparação do Corinthians?
Temos informação de peso, recuperação muscular, por meio do exame de CK (creatina quinase), números que avaliamos durante as partidas, acelerações e desacelerações, se os jogadores estão na média... Tudo isso nos ajuda a ver no dia a dia o desgaste dos atletas. Infelizmente às vezes o jogador esquece de comer ou não dorme direito. Temos de estar atentos à tudo para prevenir lesões.

E como o Carille aproveita estas informações?
Vou usar o dia de hoje como exemplo. Das 14h30 até 15h15, os atletas vão ao laboratório fazer um treino de potência. Às 15h30 já estaremos no campo. Mas antes disso eu já me reuni lá dentro com os três assistentes do Carille para determinarmos que tipo de treinamento vamos fazer, com qual volume, intensidade, o tipo de atividade que será feita. Já na reunião prévia ao treino definimos o objetivo. Isso é decidido dia a dia. A semana toda é planejada, mas também tem decisões avaliadas no dia.

Então o técnico dá muita abertura ao trabalho de vocês?
Além de estudar bastante, ele é um cara que ouve muito e está sempre se atualizando. Se a gente levantou alguma coisa que acha que precisa ser passada, vamos lá e o informamos. Mas nem tudo, porque ele tem muita coisa para pensar, não adianta ficar ouvindo um monte de números. Porém, quando detectamos algum problema ou algum atleta caindo de rendimento, apresentamos para ele. Essa troca de informação é muito aberto, ele deixa que a gente coloque em prática o que julgamos necessário.

Tem algum jogador que apresente maior desgaste e preocupe mais vocês?
Nossa preocupação normalmente é mais com a garotada da base, que ainda não está formada fisicamente. Eles estão tentando melhorar a forma física, que é tudo que se adquire durante a carreira. Condição física é apenas do momento. A nossa preocupação maior é com esse pessoal que vem subindo e tem que ter uma adaptação boa. Hoje são 14 atletas da base integrados ao elenco profissional.

Essas estatísticas em tempo real impedem os jogadores de darem "migué"?
(Risos) Não tem como mesmo, pois a gente monitora todos os atletas durante os treinamentos. Eles carregam um monitor cardíaco. A gente vê online no iPad. Dá para ver a frequência cardíaca, quanto quilômetros ele correu e se ele está na zona alvo de intensidade que a gente escolheu para aquele treino. Cada jogador deve atingir uma determinada intensidade a cada dia, controlamos isso. No programa é dividido em cores, cada quadradinho tem um jogador e suas informações.

E se alguém está abaixo da média, o que é feito?
Se isso acontece é porque tem alguma coisa errada. Ou porque ele não dormiu legal, ou se alimentou mal... A gente vai investigar. Deu a primeira parada no treino, chegamos nele e perguntamos: "O que está acontecendo?". Precisamos entender o que está acontecendo. Aí ou tiramos ele do treino ou explicamos o que precisa ser feito para melhorar mais.

Surpreende a ausência do Romero entre os que mais se deslocam, assim como a presença do Rodriguinho entre os líderes deste ranking...
Muitas vezes não percebemos, mas o Rodriguinho se desloca muito para encontrar espaço ou às vezes cobrir um companheiro que saiu da posição. Então, por ser cerebral, ele tem essa visão e consegue fazer essas coisas. Diferentemente de um cara que só faz a sua função dele e não ajuda os outros. Romero e Guilherme Arana, por exemplo, trocam muito de posição. Os números ajudam a mudar visões distorcidas que temos só na observação. O Romero dá carrinho, é voluntarioso, se mexe bastante, mas os que mais correm hoje são Rodriguinho, Maycon e Gabriel.

Fonte: GloboEsporte