Dispensado por Palmeiras e São Paulo, ele ficou um ano sem andar, mas se destacou na Itália e entrou na mira da Azzurra

Danilo Avelar está há quase dez anos no futebol europeu, tendo jogado na Ucrânia, na Alemanha e na Itália. Mesmo assim é quase um desconhecido no Brasil.

Teve o nome especulado recentemente no Palmeiras - transação que não se confirmou. O curioso é que a equipe alviverde já esteve no caminho desse lateral esquerdo. Foi há uma década, quando ele ainda era um garoto em busca de uma chance. Ouviu um "não", como já ocorrera antes ao tentar a sorte no São Paulo e no Coritiba.

ão exemplos de como a vida da voltas. E no caso de Avelar foram muitas.

 

Natural de Paranavaí, interior do Paraná, no início Avelar nem sequer jogava futebol. Começou no futsal. Também não era canhoto. Um acidente mudou tudo. Nem mesmo pensava em ser lateral. Jogava bem mais centralizado.

"Eu comecei a jogar futsal com quatro anos. Mas com cinco tive uma queimadura no pé direito. Por conta disso, fiquei um ano sem andar, sem jogar. Quando me recuperei e pude voltar a andar eu tinha virado canhoto", contou Avelar ao ESPN.com.br.

O sonho do menino era jogar futebol. Mas ele esperou dez anos para conseguir a primeira chance no campo. Morador de uma região sem expressão no futebol, ele mudou de ares.

"Fui tentar a sorte. Fiz teste no Coritiba, não deu certo. Tentei o Paraná Clube. Cheguei ao penúltimo ano para entrar nos juniores e deu certo. Eu me destaquei na Copa São Paulo e conheci o César Sampaio, que virou meu empresário", relembrou o jogador.

"Em 2008, ele me levou para fazer testes no São Paulo, mas não deu certo. Fiquei um mês treinando em Cotia. Na época tinha o zagueiro Aislan. Como não pude ficar, o César me levou ao Palmeiras. Foram dois dias de testes e fiz dois amistosos, mas não deu certo. Na época, era o Jorginho [Cantinflas] quem cuidava da base", relembrou,

A série de negativas, no entanto, não fez Avelar desistir.

Contando com ajuda de Sampaio, que também era diretor esportivo do Rio Claro, Avelar conseguiu uma chance para treinar. "O time estava na Série A2 do Paulista. Fui para lá em 2009 e estreei como profissional. Subimos para primeira divisão. Mas em 2010 caímos. Apesar disso, a chance valeu para mim e depois fui para a Europa".

Frio europeu
Avelar viajou para a Ucrânia ao lado de mais dois jogadores do Rio Claro para fazer testes. O time era o Karpaty. Assim, ele se deparou mais uma vez diante de alguém que diria sim ou não para ele. Mas relembrou à reportagem que isso não desanimou. E ficou.

"Eu ainda era volante, meio-campista, e jogava muito pouco como lateral. Tive dificuldades na pré-temporada, e o treinador me mandou para lateral esquerda. O dono da posição era da seleção ucraniana, mas ele se machucou. Eu entrei no lugar dele e fiquei. Jogamos a Liga Europa na fase de grupos. Enfrentamos PSG, Dortmund e Sevilla."

Avelar ficou apenas seis meses no Karpaty, tendo a primeira parte da temporada 2010/11. Mesmo assim recordou que conseguiu se sair bem.

"Um dia estava jantando e meu empresário ligou avisando para ir preparar as malas. O Schalke tinha acertado meu empréstimo com o Karpaty. Eu iria me mudar".

A mudança ocorreu em janeiro de 2011. Saiu da gelada Ucrânia - estava na cidade de Lviv, no oeste do país - direto para o frio alemão, em Gelsenkirchen.

"Cheguei em janeiro, um período muito ruim para treinos. Eles já tinham três laterais na minha posição. Eu sofri no começo porque vinha da Ucrânia, campeonato parado, um mês de férias. Eu cheguei lá e o campeonato já estava rolando", recordou.

"Para você ter ideia, cheguei numa quarta e no sábado já tinha clássico contra o Dortmund. O treinador Felix Magath perguntou: ‘Você está bem? Treinou?'. O que eu poderia responder. Disse: 'Estou'. Ele falou: 'Se chegar seus documentos você vai jogar'. Eu estava sem condições físicas nem havia treinado com o grupo. Não tinha como jogar. Fiquei quieto e dei sorte que os meus documentos não chegaram. Ganhei tempo", disse, aos risos.

Avelar tem boas lembranças do Schalke. Era um time que tinha nomes como o goleiro Neuer, os zagueiros Sergio Escudero e Christoph Metzelder, os meio-campistas Ivan Rakitić e Julian Draxler e os atacantes Klaas-Jan Huntelaar e Raúl.

"Fomos campeões da Copa da Alemanha, mas fiz poucos jogos. O Schalke tinha um timaço e eu era bem molecão. A ficha só caiu quando eu fui embora".

"Fui treinado pelo Magath, que é conhecido pelos treinamentos doidos dele. O CT do Schalke fica em um complexo que tem de tudo: refeitório, hotel... Um dos campos de treino era o antigo estádio do clube. Ele pediu para não demolir uma parte da arquibancada. Ela tinha uns 50 degraus e ninguém sabia a razão. Nos treinos físicos, ele fazia a gente subir correndo aquilo umas vezes (risos). Acabava o jogo ele fazia todo mundo correr de tênis uns 15 minutos mesmo cansado. No dia seguinte ele mandava a gente correr no parque com GPS para não poder dar migué", relembrou.

"O Neuer adora brasileiros e ficava sempre perto da gente. Queria aprender e repetia os palavrões que a gente falava", acrescentou Avelar.

Ponte para a Itália
Avelar não ficou no Schalke. Retornou ao Karpaty logo ao final da temporada. Mas havia subido de status. Já havia outros clubes interessados em comprá-lo.

"Tinha muita especulação, mas no primeiro jogo da Europa League eu machuque o joelho. Rompi o ligamento cruzado e melou tudo. Falavam em Milan, Fiorentina, mas foi a Roma que chegou como. Era o Luís García o técnico, mas tudo foi anulado", disse.

Avelar retornou ao Brasil para se tratar. Fez isso no Corinthians, treinado por Tite. Viveu próximo de Adriano, Emerson Sheik, Leandro Castán, Willian...

"Foram seis meses. Eu estava apenas me tratando da minha lesão, me recuperando, mas me tratavam como se eu fosse do clube. Foi uma recepção muito legal".

O lateral esquerdo regressou ao Karpaty faltando cinco jogos para a conclusão da temporada.  Ficou até o fim e aí apareceu a chance de ir para a Itália, mas nada das equipes que tinham mostrado interesse anteriormente.

"Surgiu o Cagliari. Achei interessante porque eu estava voltando de lesão. Caso pegasse um time de muita expressão poderia ser mais complicado pela minha situação. Ainda não estava totalmente seguro da volta da lesão. Topei".

À moda italiana
Avelar relata que a adaptação foi bem complicada. Apesar de ser um time de menor expressão, o Cagliari estava na primeira divisão e os adversários eram fortes.

"No começo, não foi fácil para um defensor brasileiro se adaptar à Itália, o lugar em que faz os melhores zagueiros do mundo. Muita exigência defensiva e tática. Fui evoluindo nas três temporadas e na última eu fui muito bem, mesmo com rebaixamento do time".

Avelar citou que o que mais foi difícil foi aprender a marcar. A exigência dos italianos foi alta. Exigiam posicionamento perfeito, cobertura e atuação coerente com a linha de defesa adotada como estratégia pelo treinador Zdenek Zeman.

"Na minha estreia fui tirado de campo no intervalo e fiquei dez jogos sem atuar porque recebi um lançamento nas minhas costas e não fiz a diagonal certa. Fui devagar e aprendi a marcar. Os italianos são bons de marcar e crescem aprendendo a fazer isso desde cedo. Teve um jogo contra o Empoli que fiz dois gols. Vou lembrar para sempre. Foi um gol de falta e outro de pênalti. Vencemos por 4 a 0", recordou Avelar.

Após três temporadas no Cagliari, ele entrou nos holofotes na Itália. E foi contratado pelo Torino, após uma disputa entre as equipes no mercado de verão. No novo clube, foi treinado por Giampiero Ventura, que há um ano está no comando da Azzurra.

"Eu já sabia do estilo do Ventura, que gosta de jogar no 3-5-2, com alas. Não pensei duas vezes ao receber a proposta. Um ano antes o clube estava na Europa League, é uma equipe de muita história e torcida muito fanática. Era o lugar para eu explodir. Torino está em evidência, tem como rival a Juventus e muita visibilidade. É um clube que todo ano vende jogadores para grandes equipes", disse sobre o clube atual.

"No Cagliari, eu praticamente só marcava, mas no Torino eu mais atacava do que defendia. Tinha muita liberdade", complementou.

Um novo drama
Tudo parecia caminhar de uma maneira tão boa para Avelar, que ele mal podia acreditar. Mas então veio mais um golpe do destino...

"Fui muito bem nos três primeiros jogos, mas me machuquei e tive uma série de problemas. Sofri uma lesão no joelho esquerdo, o que me deixou praticamente fora um ano e três meses. Foi muito difícil tomar a decisão de operar, esperei um certo tempo e não tinha estabilidade no joelho por causa dos ligamentos frouxos. Me tratei em Maringá com o fisioterapeuta do Falcão do Futsal", disse.

A lesão fez ele perder todo o restante da temporada 2015/16 e boa parte da temporada 2016/17, deixando inclusive de ser inscrito no primeiro turno do torneio.

Recuperou-se já no final da última temporada. Teve tempo de fazer apenas mais três jogos. Ainda assim viu o nome ser especulado no Palmeiras.

"Eu fiquei sabendo pela imprensa. Meu empresário, Marcelo Robalinho, cuida dessas situações e eu prefiro não saber. Só gosto de me informar quando se trata de algo concreto. Está na mãos dele. Tenho dois anos de contrato, mas por jogar poucos jogos e ter tido problemas de lesões talvez seja hora de mudar de ares. Temos que analisar várias hipóteses e entender o que será feito. Depois dessa conversa analisaremos o que será melhor", disse.

Na mira da Azzurra?
Danilo Avelar nunca cogitou naturalizar-se cidadão de outro país, mas confessou que poderia ter ocorrido isso nas primeiras temporadas na Itália.

"Quando eu fiz uns gols no Cagliari, por eu ter passaporte italiano, saiu um papo disso. Em dois jogos eu tinha feito três gols. Colocaram meu nome na Itália e ficou nisso. Vim para o Torino e o Antonio Conte era o técnico da seleção. Fiquei sabendo que ele estava me observando e que gostava do meu estilo de jogo", recordou Avelar.

"Fiquei feliz, lógico, mas infelizmente me machuquei logo depois e ficou por isso. Depois que o Ventura foi para a Itália eu não falei mais do assunto. Sei que estive perto de jogar pela seleção da Itália. Eu fico muito feliz, como brasileiro gostaria de jogar na seleção brasileira, mas sou realista. Fiz minha carreira interina na Europa e no Brasil ninguém me conhece. Sou realista, sempre...", completou.