Ainda sob a sombra de R10, Celsinho chega a marca no Londrina e coleciona histórias

celsinho 130717Meia está perto do 100º jogo no Londrina e mantém o estilo de Ronaldinho, mas tenta escapar da comparação: "Algumas pessoas só enxergavam o sósia"

Aos 28 anos, o meia Celsinho ainda convive com uma sombra que pesa sobre suas costas e, desabafa, trouxe muito mais problemas do que vantagens. Desde sua estreia na Portuguesa, em 2005, o cabelo comprido, o posicionamento em campo e mesmo a aparência física o colocaram como um sósia de ninguém mais que Ronaldinho Gaúcho.
Enquanto o R10 brilhava nos campos do Barcelona e fazia história, C10 iniciava sua carreira. Perto de completar 100 jogos pelo Londrina, seu atual time, ainda tenta fugir do estigma. Mesmo mantendo fatores que reforçam a comparação, como o cabelo comprido, ele lembra que a expectativa criada o prejudicou em cada time que jogou.

 

– Positivamente, eu não vejo nada (pela comparação). Em todos os clubes que chego, sou o primeiro a dizer: não esperem um futebol de Ronaldinho. Isso acabava pesando, algumas pessoas só enxergavam o sósia, o Ronaldinho, a mesma maneira e estilo de jogo, mas era só a aparência física. Algumas pessoas entendiam, outras não entendiam – disse em entrevista ao GloboEsporte.com.

Celsinho também convive como uma eterna promessa de se tornar craque e jogador de Seleção, que ocorreu em seus primeiros anos nas categorias de base, mas não se concretizou. No entanto, seu nome o levou para longe. Passou pelo futebol russo, romeno e português, além de quatro clubes brasileiros colecionando histórias que vão desde proposta para ser o sósia de Ronaldinho no cinema, um suspoto diploma de médico na Rússia a um plano mirabolante - que não foi concretizado - de chegar, literalmente, de paraquedas em sua apresentação no Londrina.

Início e “sósia” do Ronaldinho Gaúcho

Celsinho começou no profissional da Portuguesa com 16 anos, em 2005. Chamava a atenção pelo cabelo igual ao usado por Ronaldinho Gaúcho, então astro do Barcelona. Segundo o meia, apenas uma coincidência.

A comparação vem sendo levada por cada clube onde é apresentado. Para Celsinho, nada que o ajudasse. Ao contrário, criava uma expectativa maior sobre o que poderia fazer em campo.
Porém, a semelhança com Ronaldinho Gaúcho quase levou Celsinho para as telas de cinema. O jogador foi procurado por uma produtora para representar o pentacampeão mundial na infância.

– Isso repercutiu. Na Rússia eu chego com essa imagem, mas em Portugal foi mais impactante, lá falavam que chegava o "sósia do Ronaldinho" – comentou.
Vice-campeão mundial sub-17

As atuações pela Portuguesa levaram Celsinho à seleção brasileira sub-17. Ele disputou o Mundial da categoria, em 2005, no Peru, com o lateral esquerdo Marcelo e o meia Renato Augusto, que atualmente fazem parte da Seleção, o meia Anderson (do Coritiba), o volante Denilson (ex-São Paulo) e o goleiro Felipe (ex-Flamengo e Corinthians).

Celsinho fez dois gols em quatro jogos na competição. Balançou as redes nas vitórias sobre a Coreia do Norte, nas quartas de final, e sobre a Turquia, nas semifinais.

– Nós fomos vice-campeões, perdemos para o México na final (por 3 a 0). Nossa seleção era muito forte, uma das mais fortes que tivemos. Quando perdemos, foi algo muito contestável. Nossa seleção era muito forte, mas infelizmente perdemos para o México e ficamos com o gostinho de poder ser campeões. Foi um dos melhores grupos que frequentei.
“Doutor Celsinho” na Rússia

Ainda em 2005, o meia recebeu uma proposta do Cruzeiro e do Porto, de Portugal, mas foi vendido pela Portuguesa ao Lokomotiv Moscou, que pagou 7,5 milhões de dólares. Na Rússia, Celsinho conta que teve uma vida de luxo e até a conseguiu um diploma de Medicina.

– Fui às aulas cerca de um ano, quase dois, mas não era frequente. Um dia, meu intérprete me entregou um papel. Não entendi nada, e o Nelson (um amigo angolano da faculdade) olhou e disse: “Você é formado em Medicina na faculdade de Moscou. Com isso você pode trabalhar em qualquer lugar do mundo” – lembra Celsinho, aos risos.

Porém, nada de "doutor Celsinho". O jogador garantiu que não leva jeito para exercer a função e deixa isso para os profissionais do clube. Segundo o meia, o diploma foi perdido em uma das mudanças de país.

– Eu não sei dar um ponto, como vou usar isso? Eu não sei fazer nada, se depender de medicina eu estou longe. Mas, de fato, sou doutor. Doutor Celsinho – brincou.
Champions, quase no Corinthians e ida para Romênia
Celsinho perdeu espaço no Lokomotiv após algumas mudanças no clube e foi negociado com o Sporting, de Portugal, em 2007. Porém, por pouco não voltou ao Brasil para jogar a Série B do Brasileiro pelo Corinthians.

– Poderia ser que eu viesse para o Corinthians, não jogasse e depois ninguém me queria. O Sporting comprou uma parcela do meu passe, ofereceu cinco anos de contrato – explica o jogador.

Pelo time português, ele disputou a Liga dos Campeões e a então Copa da Uefa (atual Liga Europa). Porém, com poucas chances, Celsinho voltou ao Brasil em 2010 para a Portuguesa. Ficou no clube por seis meses, voltou para Portugal e acabou jogando na Romênia, pelo Targu Mures, seu último clube antes do Londrina.

Sem paraquedas, com helicóptero: a chegada ao Londrina

Celsinho foi contratado pelo Londrina no final de 2012. O time passava por um processo de reestruturação. Disputava o Paranaense, mas não participava de nenhuma divisão nacional (atualmente está na Série B do Brasileiro). A diretoria buscava um nome de impacto e chegou ao meia, que estava parado há alguns meses após a passagem pela Romênia.

A apresentação foi digna de craque: Celsinho chegou de helicóptero no estádio Vitorino Gonçalves Dias, diante do torcedor. Uma festa. Porém, a ideia inicial era bem mais ousada.

– O João Severo (então dirigente do Londrina) queria me mandar de paraquedas. Ele veio, me perguntou se eu já tinha saltado, e eu disse que não suportava altura. Depois o helicóptero apareceu e deu certo. Se não, o Celsinho ia cair de paraquedas. Imagina a piada que não ia virar isso depois? De helicóptero foi legal, foi bem bacana. Uma apresentação digna do Londrina – lembra.

Londrina: oscilação, conquistas e problemas

Pelo Londrina, Celsinho fez 99 jogos e marcou 19 gols (quatro deles marcados nesta temporada, o último na terça-feira, na vitória por 3 a 1 sobre o ABC). O partida número 100 será disputada no sábado, contra o Boa Esporte, no Estádio do Café, pela 14ª rodada da Série B do Brasileiro.
O meia foi campeão paranaense em 2014 e conquistou o acesso à Série C do Brasileiro no mesmo ano. Conquistou também três títulos do interior (2013, 2015 e 2017). Celsinho, porém, acumula oscilações, empréstimos e confusões, além de uma relação de amor e ódio por parte do torcedor.

No fim de 2013, ele se envolveu em uma briga, junto com o ex-companheiro de clube André Lima, na saída de uma boate da cidade. Em 2015, depois de uma discussão no vestiário com o gestor do clube, a diretoria do Londrina anunciou a dispensa do jogador, e depois ele foi emprestado para o Figueirense. No ano seguinte, também por empréstimo, jogou pelo Paysandu, pelo qual foi campeão paraense e da Copa Verde.

– Eu comecei muito bem (no Londrina) e depois tive essa oscilação. Aí começaram a pegar no meu pé em relação a isso. As lesões atrapalharam muito. Eu procuro fazer o meu melhor. Vem dando certo. Eu nunca passei um ano sem ganhar um título no Londrina. O que eu venho fazendo é o suficiente para alcançar os objetivos – analisou.

Objetivos e sonhos: Londrina na Série A e seleção brasileira

Sobre o futuro, Celsinho tem como objetivo levar o Londrina à Série A do Brasileiro. Esse seria o primeiro passo para um sonho ainda maior: ser convocado para a seleção brasileira.

– É o meu último ano de contrato com o Londrina. Fechar cinco anos de contrato, chegando com o clube sem nenhuma divisão nacional, e terminando esse contrato com o clube na elite do futebol brasileiro, seria fantástico. Esse é o meu grande objetivo: terminar o ano, sendo ambicioso, conseguindo o acesso – disse.

– O sonho, sem dúvidas, é voltar à Seleção. É difícil, muito difícil. Mas, é o sonho de todo atleta, de todo jogador. Temos exemplos de jogadores que em um ou dois anos chegaram à Seleção após uma regularidade e uma sequência boa nos clubes. Consegui, em partes, jogando nas seleções de base, sentindo o gosto de jogar em um Mundial. O meu grande objetivo é esse, de voltar a jogar em alto nível e voltar à seleção brasileira – contou.